Turvo 4


Não há saber mais ou saber menos: Há saberes diferentes.

Inicio esse relato com a frase do educador Paulo Freire pois aprendi demais nessa cidade. Aliás, foi aqui minha última hospedagem em Santa Catarina, esse Estado surpreendente.

Saindo de Criciúma, foram 50km em estrada plana, porém praticamente sem acostamento. Nesse trecho me deparei com muitos animais domésticos e silvestres que foram mortos por atropelamento – triste.

Aproximadamente 1km antes da cidade está o Corpo de Bombeiros, onde parei para esticar as pernas e perguntar sobre um local para acampar. O Soldado Napoli, um rapaz extremamente gentil, foi conversar com seu superior que com super boa vontade me convidou para ficar por lá.

Aceitei, e quando estava tirando a barraca da bicicleta recebi uma confirmação de hospedagem pelo CouchSurfing. A Sandra não poderia me hospedar em sua casa mas me presenteou:

Oi Rubens, vc será hospedado no hotel da família, como Couchsurfing. O Ricardo que é meu sobrinho já está te esperando, tu serás muito bem recebido.”

Expliquei aos bombeiros sobre a mudança, que compreenderam. Uma regra que ainda não vi ser quebrada: Bombeiro é gente do bem!

Parti para o Hotel Manenti, onde o Ricardo estava na portaria com alguns hóspedes e amigos. Aliás, lá as duas palavras têm significados muito próximos.

Todos me receberam muito bem e passei por uma sabatina – no melhor dos sentidos – antes de conseguir entrar no hotel. Depois voltei, conversamos e nos divertimos bastante. Gente de todos os tipos, de diversas áreas e todos com muito a ensinar.

Turvo é a Capital Nacional da Mecanização Agrícola (número de “tratores” por habitante). Aqui, o filhinho de papai ganha um trator esportivo quando faz 18 anos, a noiva chega à igreja no trator com motorista e o trator fúnebre encaminha o passageiro para a última jornada.

Brincadeiras à parte, a grande quantidade desses veículos se deve à mecanização no cultivo do arroz, que é muito forte em toda a região.

O que seria uma diária no hotel transformou-se em duas com pensão completa. A comida no Restaurante Temperos é divina! O Ricardo não me deixava colocar a mão no bolso, o que me deixou sem jeito. Mas muito agradecido, é claro.

Ele e um amigo estão construindo uma cabana nas terras da tia Sandra, como ele se refere, e fui convidado para visitar o local.

Colocamos a bike no carro e partimos para o que seria, além de tudo, a minha entrada no Rio Grande do Sul.

Passamos em Timbé do Sul, no pé da serra e a última cidade do Estado. Lá existe o Bar do Alemão que, além de vender comida e bebida, mantém um museu bem interessante.

Começamos a subida da serra. Estrada de pedra e muito íngreme, mas foi tudo bem. Lá no alto é possível enxergar longe.

Ricardo e sua La Cherô (Jeep Cherokee)

Ricardo e sua La Cherô (Jeep Cherokee)

Finalmente chegamos à cabana que ainda estava por ser concluída. Um lugar agradável e pacífico demais. E frio!

A La Cherô acordou congelada.

Às 7h da manhã o termômetro apontava 1 grau C. E a névoa começava a desaparecer.

Chegavam os construtores que vieram para concluir a cabana. E eu partia.

Levo toda a amizade e gratidão por essas pessoas que acolheram um estranho como se fosse um familiar ou um grande amigo. E é isso que nos tornamos.

Muito obrigado, Ricardo, Sandra e a todos vocês!


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4 thoughts on “Turvo

  • Dario Lucchesi

    Acompanhando aqui igual novela. Cada história, cada lugar… Isso vai virar um acervo lindo pra vida toda. Esperando o próximo! Valeu, Rubens, por compartilhar isso tudo. Abraços!

    • Factivel Autor do post

      Opa, é sempre bom ter companhia 🙂 A diferença para novela é que o próximo capítulo sempre tem novos personagens, novos lugares. E a semelhança é que muita coisa é previsível, principalmente a receptividade – que inicialmente me surpreendeu. Realmente a bagagem e as amizades que surgiram nesse breve período já me fazem ter a certeza de que foi uma escolha acertada, rica e que mudou a minha vida. Abraços e obrigado pelo apoio, como sempre!